Cirurgia Convencional de Varizes:
Flebectomia e Safenectomia
A cirurgia convencional para tratamento de varizes em membros inferiores, abrangendo a flebectomia e a safenectomia (retirada cirúrgica da veia safena doente), permanece uma modalidade terapêutica eficaz e bem estabelecida na cirurgia vascular. Embora técnicas endovenosas minimamente invasivas tenham ganhado destaque, o procedimento cirúrgico aberto ainda possui indicações precisas e resultados favoráveis. Esta descrição detalhada visa fornecer uma compreensão clara desses procedimentos para profissionais de saúde não especialistas.
1. Indicações e Critérios de Seleção
A cirurgia convencional de varizes é indicada para pacientes com Insuficiência Venosa Crônica, (ICV) falha ou resultados insatisfatórios no tratamento conservador com medicações, compressão elástica, mudanças de hábitos e evidência de refluxo significativo no sistema venoso superficial.
- Sintomas: Dor, sensação de peso, cansaço, inchaço (edema), queimação, prurido e cãibras nas pernas, que afetam a qualidade de vida do paciente.
- Complicações da Insuficiência Venosa Crônica: Alterações tróficas da pele (hiperpigmentação, lipodermatoesclerose), dermatite de estase, tromboflebite superficial recorrente e úlceras venosas (classes C4b, C5 e C6 da classificação CEAP).
- Falha no Tratamento Conservador: Persistência dos sintomas ou progressão da doença apesar do uso adequado de meias de compressão, elevação dos membros e exercícios físicos.
- Refluxo Significativo em Veias Safenas: Evidenciado por eco Doppler, geralmente superior a 0,5 segundos, associado a dilatação venosa e varizes tributárias.
- Anatomia Específica: Em alguns casos, a anatomia da veia safena ou de suas tributárias pode dificultar ou contraindicar o uso de técnicas endovenosas, tornando a cirurgia convencional a melhor opção.
- Ausência de Obstrução Venosa Profunda: É fundamental assegurar a perviedade do sistema venoso profundo, pois sua obstrução pode gerar quadros de hipertensão venosa que seriam agravados pela remoção do sistema superficial.
- Status Geral do Paciente: Avaliação da aptidão do paciente para um procedimento cirúrgico sob anestesia.
2. Preparação Pré-operatória do Paciente
Uma preparação rigorosa é crucial para a segurança e sucesso do procedimento.
- Avaliação Clínica Abrangente: História clínica detalhada, exame físico completo, com foco na avaliação cardiovascular e pulmonar.
- Mapeamento por Eco Doppler Venoso: Essencial. Realizado em posição ortostática, permite identificar com precisão as veias safenas insuficientes (magna e/ou parva), seus trajetos, pontos de refluxo, veias perfurantes incompetentes e a ausência de trombose no sistema venoso profundo. Este mapeamento guia todo o plano cirúrgico.
- Exames Laboratoriais e Complementares: Hemograma completo, coagulograma, glicemia, eletrólitos, função renal e hepática. Eletrocardiograma (ECG) e radiografia de tórax podem ser solicitados conforme a idade e comorbidades do paciente, seguindo os protocolos do anestesiologista.
- Suspensão de Medicamentos: Anticoagulantes e antiagregantes plaquetários (ex: AAS, clopidogrel, varfarina, DOACs) são tipicamente suspensos 5 a 7 dias antes da cirurgia, conforme protocolo médico e avaliação de risco/benefício. Outros medicamentos devem ser revisados.
- Marcação Pré-operatória: As varizes visíveis e o trajeto das veias safenas a serem tratadas devem ser marcados na pele do paciente com tinta cirúrgica com o paciente em pé, imediatamente, antes da cirurgia. Isso é fundamental, pois as veias colabam na posição supina (deitado).
- Termo de Consentimento Informado Livre e Esclarecido: Discussão detalhada com o paciente sobre os riscos, benefícios, alternativas e expectativas de recuperação.
3. Técnica Cirúrgica Passo a Passo
a. Anestesia Utilizada e Implicações
A escolha da anestesia depende da extensão do procedimento, comorbidades do paciente e preferência do cirurgião/anestesiologista:
- Anestesia Local: Indicada para flebectomias isoladas ou pequenas.
- Anestesia Regional (Raquianestesia ou Peridural): Frequentemente utilizada para safenectomia e flebectomias extensas, oferecendo excelente analgesia intra e pós-operatória e menor impacto sistêmico.
- Anestesia Geral: Pode ser empregada em casos de grande extensão cirúrgica, ansiedade do paciente ou contraindicações à anestesia regional.
b. Posicionamento do Paciente na Mesa Cirúrgica
- Safenectomia da Veia Safena Magna (VSM): Paciente em decúbito dorsal (supino), com o membro a ser operado ligeiramente abduzido e em rotação externa. Pode-se utilizar uma leve posição de Trendelenburg para ingurgitar as veias e facilitar a identificação, ou Trendelenburg reverso para reduzir o sangramento venoso durante o stripping (retirada cirúrgica da veia com instrumental dedicado para isso).
- Safenectomia da Veia Safena Parva (VSP): Paciente em decúbito ventral (prono).
c. Acesso Venoso e Técnicas de Identificação das Varizes
- Safenectomia da VSM: Uma incisão de 3-5 cm é feita na região inguinal (virilha), sobre o ligamento inguinal (dobra da virilha), para acessar a junção safeno-femoral. A VSM é identificada e dissecada, expondo suas tributárias.
- Safenectomia da VSP: Uma incisão de 2-3 cm é feita na fossa poplítea para acessar a junção safeno-poplítea.
- Flebectomia: Pequenas e múltiplas incisões de 2-3 mm são realizadas diretamente sobre as varizes marcadas na pele.
d. Procedimento Específico
- Safenectomia (Stripping):
- Ligadura Alta: Após a dissecção da junção safeno-femoral/poplítea, todas as tributárias que drenam para a VSM/VSP são ligadas e seccionadas. A própria veia safena é ligada rente à veia femoral comum/poplítea para prevenir neovascularização e refluxo residual.
- Passagem do Fleboextrator (Stripper): Trata-se de um dispositivo cirúrgico constituído de um fio metálico maleável é introduzido dentro do segmento da veia safena doente que necessita de tratamento da porção distal (tornozelo, joelho ou coxa )e avançado proximalmente até o ponto de ligadura alta.
- Stripping (Remoção): A veia safena é ligada distalmente à entrada do extrator para controle de sangramento. O extrator é então tracionado, invaginando e removendo a veia safena através da incisão distal.
- Flebectomia (Microflebectomia Ambulatorial):
- Através das pequenas incisões, um gancho de flebectomia (ex: gancho de Müller) é inserido para pescar e tracionar pequenos segmentos da veia varicosa.
- As varizes são delicadamente removidas em segmentos, utilizando os ganchos. As incisões são tão pequenas que geralmente não necessitam de sutura (pontos).
e. Controle de Sangramento e Fechamento das Incisões
- A hemostasia é realizada cuidadosamente durante todo o procedimento com ligaduras, compressão local e muito raramente o eletrocautério (bisturi elétrico)
- As incisões maiores (inguinal ou poplítea) são fechadas por planos com suturas absorvíveis e não absorvíveis. As microincisões da flebectomia podem ser fechadas com fitas adesivas (tipo micropore) ou deixadas abertas para cicatrização por segunda intenção.
- Um enfaixamento compressivo com ataduras de crepon é aplicado em todo membro tratado
- Meia elástica compressiva, também, pode ser utilizada em alguns casos.
4. Cuidados Pós-operatórios Imediatos e Acompanhamento a Longo Prazo
a. Manejo da Dor e Monitoramento de Complicações
- Analgesia: Analgésicos orais (AINEs, paracetamol) são prescritos, com opióides reservados para dor mais intensa, se necessário.
- Monitoramento: Observar sinais de sangramento, hematoma excessivo, edema, sinais de infecção local ou sistêmica.
- Mobilização Precoce: Encorajar a deambulação precoce (ainda no dia da cirurgia) é fundamental para reduzir o risco de trombose venosa profunda (TVP).
b. Uso de Meias de Compressão e Restrições de Atividades
- Compressão: Imediatamente após a cirurgia, uma atadura elástica compressiva ou meia de compressão graduada é aplicada e deve ser mantida por um período de 2 a 6 semanas, dependendo da extensão do procedimento e da resposta do paciente. Isso ajuda a reduzir o edema, a dor e o risco de hematomas.
- Restrições: Evitar esforço físico excessivo, levantamento de peso e períodos prolongados em pé ou sentado por 2 a 4 semanas. Caminhadas leves são incentivadas. Elevação dos membros inferiores ao repouso.
c. Acompanhamento para Avaliar Eficácia e Complicações Tardias
- Consultas de Retorno: Agendadas para remoção de pontos (se houver), avaliação da cicatrização e controle dos sintomas.
- Eco Doppler de Controle: Pode ser realizado após 3-6 meses e anualmente para avaliar a perviedade do sistema venoso profundo, identificar neovascularização, refluxo residual ou progressão da doença em outros segmentos venosos.
- Educação do Paciente: Reforçar a importância de hábitos saudáveis, controle de peso, exercícios e uso contínuo de meias de compressão em pacientes com predisposição.
5. Complicações Possíveis e Estratégias para Minimizá-las
- Hematoma e Equimose: Comuns, geralmente autolimitados sendo uma condição muito individual, inde alguns pacientes tem uma predisposição maior a esse evento adverso. São minimizados com hemostasia cuidadosa e compressão pós-operatória adequada.
- Parestesias e Dano Neural: O nervo safeno (próximo à VSM) e o nervo sural (próximo à VSP) podem ser lesionados. Podem causar dormência, formigamento ou dor localizada. A maioria das parestesias (dormência) é transitória melhorando ao longo das semanas. Raramente pode levar a uma sintomatologia permanente.
- Infecção: Rara. Minimizada com técnica asséptica rigorosa e, em casos selecionados, profilaxia antibiótica.
- Trombose Venosa Profunda (TVP) e Embolia Pulmonar (EP): Risco inerente a qualquer cirurgia. Minimizada por mobilização precoce, compressão elástica e, em pacientes de alto risco, profilaxia farmacológica (heparina de baixo peso molecular).
- Recorrência de Varizes: Pode ocorrer em 10-20% dos casos em 5 anos, devido a neovascularização na junção safeno-femoral/poplítea, tratamento incompleto de veias perfurantes, ou progressão da doença em outros sistemas venosos. Minimizada por mapeamento pré-operatório meticuloso, ligadura alta meticulosa, tratamento de perfurantes incompetentes e acompanhamento regular.
- Linfedema: Muito raro, associado a dissecção extensa na virilha ou infecções graves. Pode ser mais comum em paciente com sinais prévios de LINFEDEMA, por complicações infecciosas (erisipelas/celulites) nos membros infeirores.
6. Resultados Esperados e Taxas de Sucesso
- Melhora dos Sintomas: Taxas de sucesso na melhora de sintomas como dor, peso e edema são elevadas, com mais de 80-90% dos pacientes relatando alívio significativo.
- Resultados Estéticos: A flebectomia geralmente proporciona excelentes resultados estéticos devido às pequenas incisões. A safenectomia resulta em cicatrizes na virilha/fossa poplítea e nas incisões distais do stripping, que tendem a ser discretas.
- Qualidade de Vida: Há uma melhora substancial na qualidade de vida relacionada à saúde em pacientes submetidos à cirurgia, com retorno às atividades diárias e laborais.
- Taxa de Sucesso (Exclusão do Refluxo): A ligadura alta e o stripping da veia safena são eficazes na eliminação do refluxo na veia tratada. A recorrência de varizes, quando ocorre, é frequentemente devido a novas veias (neovascularização) ou veias não tratadas, e não a uma falha do procedimento inicial na veia safena.
- Durabilidade: Quando bem indicada e executada, a cirurgia convencional oferece resultados duradouros, comparáveis ou, em alguns contextos, superiores a algumas técnicas endovenosas a longo prazo, especialmente para casos de grande diâmetro ou anatomia desfavorável para ablação.
Em suma, a flebectomia e a safenectomia são procedimentos cirúrgicos eficazes para o tratamento da doença varicosa, com um perfil de segurança bem estabelecido e altas taxas de satisfação do paciente, quando aplicados a indicações apropriadas e executados por profissionais experientes. A adesão às diretrizes clínicas e uma comunicação clara com o paciente são fundamentais para otimizar os resultados.